O VULCÃO DOS CAPELINHOS,

ORLANDO RIBEIRO E OUTRAS MEMÓRIAS

Maria Fernanda Alegria

A convite de Christine De Roo, no dia de inauguração da sua interessante exposição na Casa dos Açores em Lisboa (17 de Fevereiro de 2017), onde o vulcão dos Capelinhos foi tema dos seus quadros, recordei a explosão deste vulcão, estudada em 1957 em directo pelo saudoso Professor Orlando Ribeiro. Por ocasião do centenário do seu nascimento o jornal Público tinha publicado uma notícia (13 de Fevereiro de 2011), intitulada “Orlando Ribeiro: o geógrafo que gostava de fotografia, de música e de vulcões”, que em parte se reporta a este vulcão. Pareceu-me por isso oportuno relembrar umas tantas frases de Orlando Ribeiro, proferidas aquando da primeira grande reportagem no exterior da RTP, exactamente na ilha do Faial onde o geógrafo tinha ido para estudar as origens e consequências da explosão dos Capelinhos.

Foi deste modo que o documentário da RTP e Orlando Ribeiro foram recordados nessa notícia:

“Um dos momentos mais deliciosos do documentário1 é aquele em que Orlando Ribeiro surge na ilha do Faial, tendo como cenário o vulcão dos Capelinhos, que entrou em erupção a 27 de Setembro de 1957, e onde ele e Raquel Soeiro de Brito chegaram poucos dias depois. É o único momento [e também o primeiro] em que ouvimos a voz de Orlando Ribeiro, a ser entrevistado para a RTP, que tinha iniciado as emissões regulares meses antes”.

Eis as palavras de Orlando Ribeiro, em resposta ao entrevistador Vasco Hogan Neves: "Infelizmente não é possível oferecer — como é que se chamam as pessoas que escutam isto?... os telespectadores — aos telespectadores os ruídos do vulcão, de modo que, para os substituir, muito tristemente aliás, vamos dizer alguma coisa sobre a erupção."2

Orlando Ribeiro, que era um tanto avesso aos meios de comunicação social, então encarados de forma bastante distinta da actual, esteve na ilha por duas vezes, a primeira entre 5 e 22 de Outubro de 1957, altura em que foi entrevistado e, depois, entre 4 e 22 de Janeiro de 1958. O vulcão tinha entrado em erupção a 12 de Setembro de 1957 e manteve-se em actividade por 13 meses, até 24 de Outubro de 1958. Provavelmente terá sido uma sobreposição de duas erupções distintas, uma começada a 27 de Setembro e a segunda a 14 de Maio de 1958. A partir de 25 de Outubro o vulcão entrou em fase de repouso, subsistindo a partir de então fumarolas esparsas.

Segundo Orlando Ribeiro era de um tipo perfeitamente definido: uma erupção explosiva, emitindo pedras de várias dimensões, algumas das quais chegaram a atingir o Farol dos Capelinhos, e também massas de cinza muito consideráveis.

As erupções explosivas são causadas pela acumulação de vapor e gases sob elevadas pressões, que são libertados de forma violenta para a atmosfera. Os gases dissolvidos no magma em ascensão, por acção da pressão, podem originar explosões secundárias ainda mais intensas, com libertação de piroclastos. que originam formas com a forma de cones. Devido à sua viscosidade, a lava constitui estruturas arredondadas, chamadas domas ou cúpulas.   Por vezes a lava solidifica dentro da chaminé, formando agulhas vulcânicas, que podem mais tarde ficar a descoberto devido à erosão do cone.   

Nas erupções efusivas o magma é relativamente pobre em sílica, é básico, e origina lavas muito fluidas capazes de escorrer por longas distâncias. Um bom exemplo é uma fissura eruptiva da Islândia há cerca de 8 000 anos. Essa escoada percorreu cerca de 130 km até ao mar e cobriu uma área com cerca de 800 km².

As erupções mistas têm características intermédias, com fases explosivas e outras efusivas.  Formam-se cones mistos, em que camadas de lava alternam com outras de piroclastos.  Alguns vulcões são de um só tipo, outros são mistos. Também se podem classificar as explosões como havaianas (Havai) estrombolianas (ilha de Stromboli, Sicília) e plinianas (Monte Vesúvio, ano 79, descrita por Plínio o Novo).

Recordando uma frase espirituosa de Mark Twain “comprem terra porque ela já não se fabrica” diríamos que os Açores, e em geral os sistemas vulcânicos, provam o contrário.

Algumas explosões do vulcão dos Capelinhos chegaram a demorar cerca de 1 hora, com jactos de 600 metros e raros de 4.000 metros. Muitas delas foram submarinas, de tipo estromboliano. Eram acontecimentos luminosos como de fogo de artifício, mas dantescos e tormentosos para quem a eles se submetia. A imprensa estrangeira deu notoriedade ao acontecimento, como foi o caso, entre outros, do Paris Match e da Geography Societ Review. A explosão interessou também vulcanólogos e até cineastas, entre os quais Gerard Gery, que registou uma escalada à cratera.

Houve manifestações particularmente intensas na Ponta Norte, Ribeira Funda e Seles, tendo sido destruídas no conjunto cerca de 500 casas. Não houve vítimas mortais, mas uma grande parte da população viu-se obrigada a abandonar a ilha. A partir de Dezembro de 1957 começaram a chegar donativos em dólares e a ideia de emigrar para os EUA foi ganhando força. A primeira evacuação ordenada aconteceu a 15 de Maio de 1958, ou seja, logo no dia seguinte ao da segunda forte explosão e cerca de 6 meses após o acordar do vulcão e outros tantos antes do fim.

Em 1958, o senador John Kennedy, que preparava então a candidatura à Casa Branca, conseguiu criar legislação especial que abriu a porta à emigração faialense. Em Julho desse ano o primeiro grupo de emigrantes abrangido por esse acordo especial com os EUA levaria os faialenses à Ilha Terceira e daí para a América. A população do Faial decaiu para mais de metade em consequência do vulcão.

Hoje infelizmente a emigração para os EUA não é assim. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança: 
Todo o mundo é composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades. 

Continuamente vemos novidades, 
Diferentes em tudo da esperança: 
Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 
Que já coberto foi de neve fria, 
E em mim converte em choro o doce canto.

 

E afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto, 
Que não se muda já como soía.

 

Luís Vaz de Camões, Sonetos

 

1 Documentário, que ainda pode ainda ser visto na Internet: História de um vulcão, Colecção Catástrofes Naturais – RTP Arquivo (c. 28’).

2 Tal como no vulcão dos Capelinhos, Orlando Ribeiro documentou e fotografou profusamente a erupção na ilha do Fogo, em Cabo Verde, em 1951. No livro A Ilha do Fogo e as suas erupções, 1954, não se esqueceu também das provações por que passava a população com a seca e as fomes, especialmente no capítulo “As crises: miséria e redenção”. Ao contrário do resto do livro, enviado à Junta de Investigações do Ultramar, esse capítulo seguiu logo para a tipografia, para evitar que fosse censurado. "O Orlando já era conhecido internacionalmente. Como na altura era vice-presidente da União Geográfica Internacional, não tiveram a coragem de suprimir o livro", conta Suzanne Daveau.

© 2020 Christine De Roo